Cada sopro de fumaça evidenciava mais uma coisa em sua cabeça:
Não é real. Nada disso aconteceu.
Você nunca seria capaz disso.
Até... O cigarro enfim acabar. Juntamente com esse devaneio que afastava de si a realidade: Sim, aconteceu. Você foi capaz disso.
Sempre fora do tipo certinha e o relacionamento parecia quase sem defeitos. Havia muito amor de ambas as partes... Havia? Até certo ponto, talvez.
Talvez só estivesse cansada de tudo.
Talvez só precisasse de um tempo de tanto amor romântico.
Mas o fato é que aconteceu. E não havia possibilidade de voltar atrás.
As mensagens continuavam ali caso quisesse tirar uma prova real sobre tudo que passou.
Sentia-se então não mais profana e íntegra de seus sentimentos e ações, mas a mais vulgar e desprezível mulher no mundo. Talvez no universo.
Seus atos reuniam todo o repudio que um dia tivera sobre um ser humano.
Quão hipócrita era.
Mas ele era tão bom. E sua voz ressoando parecia convidar-lhe para o devasso, para a corrupção sem pudor algum. E o sentimento, pelo menos temporariamente, era magnífico.
Foste uma mulher sem regras, afinal.
Apelara para o mais íntimo e precário sentimento mundano.
E depois de tudo, tinha coragem de ir ao seu querido e proferir as palavras que sempre tiveram grande significado e carinho,
"Eu te amo"
Mas isso agora nada significava.
Nunca lograra apaziguar suas paixões numa fonte comum, tampouco extrair delas um resquício de depravação natural do núcleo humano. Pela primeira vez, sentia-se uma puta. Uma vagabunda. Uma meretriz até. Uma mulher puramente mundana. Mas também sentia-se de certa forma livre. Livre como se tivesse asas de cera que derreteriam se ousasse voar até o sol.
Isso porque a liberdade ali era demarcada. Uma linha tênue entre liberdade e perda total de sua própria concepção do que significava ser um ser Humano. Porque não se pode ter liberdade deliberada sem perder um pouco de sua essência sobre as coisas.
Questionava-se também sobre o significado de ser certinha que sempre lhe atribuíram. Seria ela uma pessoa correta? Ou então, respeitável? Mas nada desfrutou de nenhuma dessas coisas. Pelo contrário, já que tantos se apresentaram como anjos e se mostraram enfim demônios em sua vida. Então valeria a pena? Não sabia, mas sabia que definitivamente temia ser como eles.
Então seria como eles por ter cometido tão ato tão repugnante?
Eram tantos questionamentos que afastavam a possibilidade de resposta devido a complexidade de tais.
Não podia ser como eles. Não seria capaz de causar propositalmente o mal à alguém nem se tentasse. Mas... Não já havia causado?
Por que o amor de seu parceiro não era suficiente para evitar tal acontecimento?
Seria isso tudo parte de uma inconsciente vingança impulsionada pelo fato de não ser tratada exatamente como queria?
Tal coisa era egoísta, pensara. Mas não deixava de ser uma possibilidade.
Numa noite que se estendia para a madrugada ela não pensara em você. Pensara somente em si. E de maneira irresponsável abria seu coração para um amante, que nada tinha a ver contigo.
E foram várias horas de palavras que acalentavam seu corpo de maneira fugaz.
Não pensara em você em nenhuma dessas horas.
Não pensara em você.
O cigarro continuava queimando enquanto refletia tantos acontecimentos. E a fumaça dissipava escurecendo, invés de seus pulmões, o seu coração.
Recebera uma mensagem nova.
"Boa noite amor, te amo, dorme bem"
Dissera à você, que de nada sabia.
