As lágrimas continuavam rolando enquanto eu encarava fixamente o mundo lá fora por trás de algumas grades.

Odiava o jeito que não conseguia segurar o choro. Era como se uma torneira tivesse sido aberta e eu não tinha controle nenhum para tentar fechar.

Todas as outras crianças já haviam ido embora para suas casas.

Por que eu era sempre a última?

"Eles estão trabalhando.. os meus pais... eles estão trabalhando, por isso não vieram me buscar ainda" 

Mas os pais das outras crianças não trabalhavam também?

 Olhava para minha própria farda, que estava um pouco suja e desbotada. As outras meninas tinham seus uniformes muito bem limpos e cuidados. As outras meninas iam para a escola com penteados em seus cabelos e vários enfeites e acessórios. Eu não tinha nenhum, e tampouco alguém fazia penteados em meu cabelo.
É algo que eu não deveria reclamar nunca, certo?
Penteados, roupa lavada, ser buscada no horário certo... Haviam crianças que não tinham pais, certo? Haviam crianças cujos pais não tinham condições de comprar um caderno e mochila da Jolie, como eu tinha. Que direito eu tinha de reclamar?

 Depois de esperar muito tempo chorando copiosamente, finalmente alguém aparecia para me buscar. Eu não entendia, naquela época, que eu tinha direito de ficar triste por ser deixada sozinha porque meus próprios pais esqueceram de me buscar. Eu também não fazia ideia do tempo que esperava, mas sabia que ás vezes já estava escuro lá fora.
Quando alguém chegava, eu abria um sorriso e ia logo de encontro. Eu não entendia que o justo era que me buscassem no horário certo. Eu só estava feliz de alguém finalmente ter chegado.
Mas eu não me sentiria mal se fosse o meu filho sozinho chorando numa varanda te esperando que o buscasse?