eu sinto como se estivesse na borda de algo todos os dias
eu sinto como se estivesse a beira de um ataque nervoso
sinto como se eu estivesse desmoronando
todos os dias parece ficar mais claro que
a única saída para isso tudo
é o abraço frio da morte
a melancolia que assola meus dias vem sempre carregada
quando ouço meu pai xingar em casa
quando me dou conta do quão sozinha eu sou
quando penso naquela coisa sobre a vida,
aquele segredo cujo ninguém nunca se deu o trabalho de me contar
quando busco me conciliar com pessoas que me destrataram,
numa falha tentativa de provar que não merecia ser destratada
quando tento explicar para outrem como eu me sinto ou como vejo as coisas, sempre em vão;
quando espero que me entendam mesmo sem saber me explicar, sempre em vão.
quando a ânsia de cobrir esse enorme vazio no meu peito
é substítuida pelo vislumbre de realidade
que diz que nada pode cobri-lo
corações não são cobertores onde se podem costurar retalhos quando os rasgam
você sabia?
e as madrugadas foram feitas para que pessoas como eu pudessem pensar alto o suficiente sem temer que o volume intenso das palavras gritadas pelo coração seja ouvido pelas pessoas ao redor
apenas os barulhos exteriores acordam as pessoas durante as madrugadas
nunca os gritos do coração de quem sofre.
curiosamente
quando eu removo a minha aliança
posso ver claramente:
mais um buraco.
mas dessa vez,
consigo retalhar-lo
com o meu próprio dedo.
